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A invisibilidade da juventude no PDE

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Dom, 28 de Outubro de 2007 21:00

Por Maria Virgínia de Freitas, assessora da Ação Educativa e integrante do Conselho Nacional de Juventude. 

 

Publicado no jornal Correio Braziliense, caderno Gabarito. 

 

Em abril, o Ministério da Educação lançou um plano que tem por objetivo melhorar o ensino do país de uma maneira geral, chamado Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). A iniciativa provocou elogios, mas também muitas críticas e dúvidas.

Uma das críticas é que os jovens não aparecem no PDE. Não há, entre as diversas ações que o compõem, nenhuma meta ou mesmo consideração acerca do desafio de construção de uma escola que responda às necessidades de aprendizagem de moças e rapazes. É verdade que os jovens são o público por excelência dos ensinos médio e profissionalizante, bem como o público majoritário do ensino superior, mas isso não basta. É preciso que o governo leve em conta o que os jovens pensam e querem para a educação: não há diferenças entre uma escola para crianças e uma escola para jovens?

No PDE, em troca de mais verbas para a educação, o MEC incentiva que os municípios assinem um plano de metas que propõe, por exemplo, “matricular o aluno na escola mais próxima da sua residência”. Se tal orientação parece necessária para a educação de crianças, o mesmo não se pode afirmar no caso de adolescentes e jovens, quando ela pode se tornar uma camisa-de-força. Nos grandes centros urbanos, é comum que os jovens queiram se matricular em escolas públicas mais distantes de casa, seja porque elas desfrutam de maior prestígio, seja pela necessidade de estudar próximo ao local de trabalho. Para rapazes e moças, estudar mais longe de casa pode significar um avanço na construção de sua autonomia, maior circulação pela cidade, contato com contextos sociais e pessoas diferentes e um enriquecimento de sua formação.

Na formação de professores, por exemplo, não se aponta a necessidade de inclusão de uma abordagem sobre a especificidade de “ensinar jovens”. Diversos estudos e pesquisas apontam que os desafios envolvidos na escolarização dos jovens são diferentes daqueles que caracterizam a educação de crianças. A falta de preparo dos professores é um dos fatores do baixo aproveitamento escolar dos jovens, das dificuldades relacionais entre eles e seus educadores, e fonte de frustração para estes últimos.

Estágio e ensino superior

Para os rapazes e moças estudantes, uma das mais positivas e importantes medidas anunciadas é a alteração das normas gerais do estágio. Foram atribuídas responsabilidades à escola e estabelecidos os limites da jornada e da concessão de bolsas, além de um seguro contra acidentes pessoais.

Dessa forma, o MEC dá um importante passo no combate ao uso comum do estágio como forma de precarização do trabalho.

No que diz respeito à educação superior, duas medidas visam ampliar o acesso. A primeira busca facilitar o ingresso nas instituições privadas por meio da mudança de regras do FIES - Fundo de Financiamento ao Estudante de Ensino Superior: o limite de financiamento do programa passa de 50% para até 100% do valor da mensalidade, entre outras modificações.

A segunda medida planeja a duplicação das vagas nas Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) por meio do aumento da relação professor/aluno e da contratação de mais docentes. A meta é dobrar o número de estudantes de graduação em dez anos.

Educação profissional

A educação profissional pública deverá ser fortalecida. Suas metas são triplicar o número de alunos matriculados na educação profissional e tecnológica e tratá-la de forma integrada ao sistema regular de ensino nos diferentes níveis e modalidades. Mas a implementação das ações terá como desafio encontrar o ponto exato dessa aproximação: a escola não pode ignorar o mundo do trabalho, mas a ele não pode se reduzir. Por isso, parece positiva a proposta de articulação do ensino médio com o ensino profissionalizante: o aluno terá duas matrículas separadas e os cursos poderão ser simultâneos ou seqüenciados.

Ainda no que diz respeito ao ensino profissionalizante, o plano prevê a criação, em quatro anos, de 150 novas escolas técnicas e profissionalizantes e 200 mil novas matrículas.

Quanto ao ensino médio, algumas ações procuram melhorar sua infra-estrutura: atualização e ampliação das bibliotecas das 17.049 escolas, ainda em 2008, permitindo o acesso aos novos acervos de literatura e de pesquisa para 30 milhões de alunos da educação básica, com a participação das escolas no processo de escolha desses acervos; distribuição de computadores para todas as escolas públicas de ensino médio, em 2007, e a implantação de Internet banda larga.

Mas todas essas ações, ainda que possam ser positivas, aparecem isoladas. Os jovens se sentem pouco compreendidos pela escola e, muitas vezes, insatisfeitos com os métodos e recursos utilizados, considerando-os obsoletos, ultrapassados e pouco atrativos. E isso não aparece contemplado pelo PDE.

 

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